A conversa entre os textos
Caetano Veloso e Gregório de Matos, cada um em sua época, cantam a Bahia. Caetano se apropria de alguns versos de Gregório, cerca de trezentos anos depois, e cria uma canção sobre o Brasil do início da década de 70. O objetivo era mostrar aos alunos a relação interdiscursiva da canção de Caetano com o texto de Gregório e o sentido novo que o poema recebe, considerando a situação de exílio em que se encontrava quando compôs a canção.
Sugeri aos alunos que fizessem a mesma coisa: Tomando os dois versos iniciais do poema de Gregório de Matos , dessem continuidade ao poema, falando de sua cidade ou de seu país hoje. Apenas uns poucos alunos aceitaram o desafio. E, para minha alegria, deparei-me com algumas pérolas de poemas, produzidas por eles.
Textos lidos:
I- Poema barroco: Gregório de Matos – séc XVII
Triste Bahia! Ó quão dessemelhanteEstás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante. A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante. Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote. Oh quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!
***
II- Canção: Caetano Veloso – década de 70
Triste Bahia, oh, quão dessemelhante estásE estou do nosso antigo estado
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado
Rico te vejo eu, já tu a mim abundante
Triste Bahia, oh, quão dessemelhante
A ti tocou-te a máquina mercante
Quem tua larga barra tem entrado
A mim vem me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante
Triste, oh, quão dessemelhante, triste…
Pastinha já foi à África
Pastinha já foi à África
Pra mostrar capoeira do Brasil
Eu já vivo tão cansado
De viver aqui na Terra
Minha mãe, eu vou pra lua
Eu mais a minha mulher
Vamos fazer um ranchinho
Todo feito de sapê, minha mãe eu vou pra lua
E seja o que Deus quiser
Passos:
1- Em sala de aula, lemos os dois poemas acima.
2- Durante a leitura, discutimos sobre o tema provocado pela letra da música: “Os elementos citados, como Bahia, pobreza, máquina mercante, entre outros, se associam ao quadro político-econômico do país na época: valeria a pena, em nome do desenvolvimento econômico do país, abrir as portas ao capital estrangeiro e suprimir a liberdade de expressão? Comentamos sobre esta “pobreza” política e espiritual de um país que já tinha sido livre e alegre no passado.
3- Em seguida, observamos os aspectos formais do poema (letra da música): a disposição dos versos, a seleção do vocabulário. Comparamos a linguagem barroca com a modernista.
4- Os alunos são desafiados a criar um poema, tomando os dois versos iniciais de Gregório de Matos, como o fez Caetano, e dessem continuidade ao poema, falando de sua cidade ou de seu país hoje.
Os textos produzidos pelos alunos:
Triste Bahia, oh, quão dessemelhante estás,
Estou do nosso antigo estado
Rica e muito animada…
Triste Amazônia, oh, que lamento,
sofrendo com o desmatamento
que saudade da paz,
que nem mais o vento traz…
Oh, Amazônia, cheia de diversidade
Bem longe da cidade
mesmo assim não vive segura
com tanta solicitação e procura.
Matheus – aluno da 1ªsérie do Ensino Médio
***
Triste Bahia, oh, quão dessemelhante estás,
Estou do nosso antigo estado
Pequenos meninos pelas ruas vagar
Sem um destino traçado
O que o futuro lhes reserva é algo para imaginar
Mas não muito diferente de seus antepassados
Sem família para serem acolhidos
Sem estudo para tentar uma mudança
Sem trabalho para se tornarem cidadão dignos
Sem alguém para lutar por seus direitos
Triste Bahia, oh, quão dessemelhante estás,
Estou do nosso antigo estado
Largando estes meninos ingênuos e indefesos
Que sem proteção se emaranham por erradas veredas
Com certeza tropeços
E tornam-se algozes dessa sociedade
Ah se de repente Deus quisesse
Que viesse a te tornar moderada
E se importasse com teus pobres
Taíssa – aluna da 1ªsérie do Ensino Médio
***
Triste Bahia, oh, quão dessemelhante estás,
E estou do nosso antigo estado.
Saudades dos bons tempos
Triste Rio, oh, que lamento!
Um tanto violento
A saudade da liberdade
Que um dia talvez volte a ter…
Oh Rio! Quero te ver de novo!
Vestir a fantasia e assistir à alegria
Curtir a praia e a folia
E viver feliz, feliz…
Tainah – aluna da 1ªsérie do Ensino Médio
***
O ganso de ouro

Hoje eu trouxe uns trabalhinhos de uma turminha de 5ª série, da rede pública. Não há muita familiaridade com o texto escrito, mas percebi que os olhinhos brilhavam durante a leitura.
Lemos, em sala de aula, uma adaptação do conto dos irmãos Grimm, O ganso de ouro, no qual, João Bocó, filho de um lenhador pobre, ajuda um homenzinho na floresta, dividindo com ele sua bebida e sua comida. O homem tinha poderes mágicos e lhe diz para que vá até determinada árvore e, dentro dela, João Bocó descobre um ganso de ouro. Depois de vários acontecimentos, ele chega a um reino onde havia uma princesa que nunca ria. Ajudado pelo homenzinho, cumpre uma série de tarefas e casa-se com a princesa.
Durante a leitura, fazíamos comentários sobre o comportamento dos personagens, tais como solidariedade e ganância. Rimos muito com o desenrolar da história e com seu desfecho. Todos os alunos puderam dar sua opinião sobre o enredo. Após a leitura, pedi aos alunos que fizessem o que desejassem sobre a história lida.
E, eis os trabalhinhos, simples, mas feitos com amor. Há depoimentos, cruzadinhas, desenhos de cenas do conto, poemas, etc. Eu adorei!








imagens:
Alguns trabalhos de alunos da 5ª série fundamental
capa do livro: daqui
Volta à roda

Hoje recomeçaram as aulas de Literatura, após um período maravilhoso de férias de verão. O sol ainda teima em torrar a pele dos desavisados, mas , em sala de aula, o ar condicionado ajuda a refrescar as idéias e aumentar o aquecimento global.
Pois bem, começamos com um breve resumo das cantigas trovadorescas de amor e de amigo. Durante a semana, os alunos analisarão alguns poemas da época e outros atuais que contém a influência trovadoresca. Esperamos novidades para este ano.
Um ótimo retorno às aulas e um excelente projeto na roda de leitura em 2009. Aguardem!
Imagem: daqui
A “cegueira revisitada”

O julgamento de Capitu
Baseando-se nessa acusação eterna que recai sobre a fidelidade de Capitu, meus alunos montaram um video , adaptando uma HQ escrita por João Arruda e ilustrada por Vinícius Mitchellem, em que um “tribunal” discute se a moça é ou não culpada de adultério. Um deles assume o papel de advogado de Capitu, procurando ouví-la, senti-la. Há algumas cenas em que as personagens são retratadas em situação que comprovam a acusação ou inocentam Capitu.
No final da apresentação do vídeo, na Feira Pedagógica, os alunos abriram ao público a possibilidade de decidir se Capitu é ou não culpada. A maioria votou pela culpa de Capitu! Fizemos depois, em sala de aula, um debate sobre a narrativa em 1ª pessoa que configura o ponto de vista unilateral do narrador, um marido corroído pelo ciúme e pela desconfiança. Poderia se confiar em tal versão, impregnada de parcialidade? Eles continuaram achando que sim, que Capitu o traíra, que era culpada. Deus meu, até quando nós mulheres carregaremos este estigma?
Assistam ao vídeo e deixem também sua opinião, ok!
Jornal Nacional estilizado
Vejam:
Vou-me embora para a Lua…
Texto 6: Lua

Alguns alunos demonstram interesse em mostrar os textos que produzem, independentes de estarem ou não inseridos no projeto atual da turma. A sexta produção individual surgiu após lermos e estudarmos, há alguns dias, o belíssimo poema de Manuel Bandeira:Vou-me Embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Dias depois, um deles me perguntou o que era uma paródia. Expliquei-lhe que era uma recriação de um texto, geralmente famoso, conhecido, com objetivo de contestá-lo, ironizá-lo, criticá-lo, até mesmo zombar dele.Ou, simplesmente, homenageá-lo.
Qual não foi minha surpresa ao abrir meu Gmail e encontrar uma bela paródia do poema acima, feita por um dos alunos. Eu achei interessante, vejam lá na página Textos livres. É só clicar e ler.
imagem: daqui
Como robôs?
Roda nº 8:
Texto lido: Admirável Chip Novo, de Pitty
Assista ao vídeo:
Aonde estão meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo
Parafuso e fluído em lugar de articulação
Até achava que aqui batia um coração
Nada é orgânico é tudo programado
E eu achando que tinha me libertado
Mas lá vem eles novamente, eu sei o que vão fazer:
Reinstalar o sistema Pense, fale, compre, beba
Leia,vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga
Tenha, more, gaste, viva
Pense, fale, compre, beba
Leia,vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga
Mas lá vem eles novamente
Reinstalar o sistema
Mas lá vem eles novamente, eu sei o que vão fazer:
Reinstalar o sistema
Passos:
1- No telão, em sala de aula, assistimos ao vídeo e lemos os versos da canção acima.
2- Durante a leitura, discutimos sobre o tema provocado pela letra : “A manipulação social – agimos como robôs do sistema, que dita as normas e as seguimos sem questionar?”
3- Em seguida, observamos os aspectos formais do poema (letra da música): a disposição dos versos, a seleção do vocabulário. Comparamos este gênero ao gênero narrativo que nos possibilita contar histórias.
4- Os alunos são desafiados a criar uma crônica (gênero já previamente estudado) , criando uma história, a partir das idéias contidas no poema.
Um dos textos produzidos pelos alunos foi selecionados para publicação aqui no blog.
Texto produzido por aluna da 1ªsérie do Ensino Médio:
Mudando sempre
Sabemos que o cotidiano das pessoas é sempre igual, sempre as mesmas pessoas, os mesmos lugares, ou seja, tudo igual.
Mas, há sempre uma chance de mudar, como Maria, cansada da vida de sempre. Ao acordar dizia ao marido:
- Bom dia, amor!
Ia ao trabalho e, lá, respondia ao chefe:
- Claro, senhor, meu trabalho está feito!
Ao almoçar em um restaurante perto do trabalho dizia:
- Bife com fritas, por favor!
Cansada dessa vida sempre igual, ela resolveu mudar.
Ao acordardisse:
- Amor, estou indo morar em Paris com meu amante!
No trabalho respondeu:
- Me demito, seu desgraçado!
No almoço, pediu:
-Por favor, comida mexicana!
Podemos concluir dessa história que devemos mudar, às vezes, só para a vida não ficar enjoativa.
Gabriela – aluna da 1ªsérie do Ensino Médio
“Na roda de leitura” em nova fase

Na roda de leitura
O mundo é nosso

Perguntei aos alunos do 7º ano o que eles pensam
dos adultos que não cuidam do meio ambiente.
E aqui está a opinião da Mariana:
Como todos sabemos, no mundo ocorrem vários problemas. Mas estes problemas não são irreversíveis! Ainda podemos salvar o nosso planeta. Se nós não desperdiçarmos energia elétrica, estamos preservando o meio ambiente. Como podemos fazer isto? Simples! Não ligando a luz de dia, não ligando o ventilador no frio. O mesmo podemos fazer com a água. Afinal, o desperdício de água também é um problema sério!
Em relação aos animais: também podemos protegê-los, cuidar deles. Podemos ajudar não caçando e denunciando as pessoas que caçam e maltratam.
Como os outros fatores, a poluição do ar também é causada pelo ser humano. Ela ocorre devido à fumaça que sai das chaminés das indústrias e de carros. Podemos pedir aos nossos pais que coloquem gás (GNV) , em vez de gasolina, em seus carros.
Os adultos também poderiam ajudar. Mas, só alguns se preocupam. Isso é ruim, porque eles devem dar o exemplo aos seus filhos.
Mariana, 11 anos

